O resumo desta semana abrange quatro áreas distintas: um relato de caso que associa um medicamento comum para acne ao zumbido pulsátil, um estudo clínico que mapeia as disfunções físicas encontradas em doentes com zumbido somatossensorial, um estudo transversal sobre picos de pressão arterial matinal e zumbido em doentes hipertensos, e duas revisões mecanísticas que examinam a neurobiologia do zumbido e a sua relação com a intolerância ao som. Os estudos clínicos têm a relevância mais direta para os doentes; as revisões fornecem contexto de fundo sem implicações imediatas para o tratamento.
Tinnitus Types: Zumbido Induzido por Medicamentos
Alguns medicamentos, incluindo aspirina, certos antibióticos e diuréticos, podem desencadear ou agravar o zumbido. Quais os medicamentos a vigiar.
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Resumo de Investigação sobre Zumbido: Impacto na Saúde Mental, Cuidados Integrados e Casos Relacionados com Medicamentos
O resumo desta semana abrange quatro áreas relevantes para doentes com zumbido e clínicos: um estudo transversal sobre o impacto na saúde mental em pessoas que frequentam consultas de zumbido, um pequeno ensaio piloto de uma abordagem de gestão integrada, um caso clínico de zumbido pulsátil associado a um medicamento para acne e um caso educativo sobre a doença de Ménière. Nenhum dos temas representa um avanço no tratamento, mas em conjunto refletem a importância de abordar o zumbido como uma condição com dimensões psicológicas, audiológicas e médicas.
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A Tua Primeira Consulta com um Audiologista para Zumbido: O Que Esperar
Antes de Entrares: O Que Te Passa Pela Cabeça
Se tens ouvido um som que mais ninguém consegue ouvir — um zumbido, um sibilo, um chiado, ou algo completamente diferente — e finalmente marcaste uma consulta com um audiologista, é provável que chegues àquela sala de espera cheio de perguntas. Vão encontrar alguma coisa? Os resultados vão ser normais, e o que é que isso significa afinal? Vais sair com respostas, ou com ainda mais incertezas?
Esses medos são completamente compreensíveis. Este artigo explica-te passo a passo o que acontece numa primeira consulta de zumbido com um audiologista: o que te vão perguntar, em que consistem os testes, o que significam os resultados e o que quer dizer um resultado normal. No final, deves sentir que já não estás a entrar no desconhecido, mas sim que tens uma ideia clara do que esperar.
O Que Faz Concretamente um Audiologista para o Zumbido?
Na tua primeira consulta de audiologia para o zumbido, podes esperar uma história clínica detalhada, uma avaliação auditiva completa e testes específicos para o zumbido, que incluem a identificação do tom e da intensidade do som. A avaliação completa dura normalmente entre 60 e 90 minutos e termina com um plano de gestão personalizado, mesmo que não seja identificada uma causa única. Os audiologistas verificam se existe perda auditiva associada — presente em cerca de 90% dos casos de zumbido crónico (Shapiro, 2021) —, excluem causas que necessitem de referenciação para outros especialistas e elaboram um plano individual que pode incluir terapia sonora, aparelhos auditivos ou apoio psicológico. O objetivo não é uma cura, mas sim compreender melhor o teu zumbido e definir um próximo passo concreto.
Passo 1 — Antes da Consulta: Como Te Preparar
Uma pequena preparação antes de ires torna a história clínica mais rápida e garante que o audiologista recebe informações precisas desde o início.
O que escrever antes da consulta:
- Quando o zumbido começou e como surgiu (de repente ou gradualmente)
- Como é o som: zumbido, sibilo, chiado, estalido ou um tom contínuo
- Qual o ouvido ou ouvidos afetados, ou se parece estar dentro da cabeça
- Se é constante ou intermitente, e se há algo que o melhore ou agrave
- Qualquer exposição recente a ruído intenso — um concerto, ferramentas elétricas, um incidente no trabalho
- Infeções de ouvido recentes, traumatismos cranianos ou cervicais, ou períodos de stress intenso
Faz uma lista completa dos medicamentos e suplementos que tomas. Alguns medicamentos são ototóxicos — ou seja, podem afetar a audição e potencialmente desencadear ou agravar o zumbido. Entre eles estão os salicilatos (como o ácido acetilsalicílico em doses elevadas), os diuréticos de ansa, certos antibióticos aminoglicosídeos e medicamentos à base de quinina (Merck Manual, S13). O audiologista vai perguntar-te diretamente sobre estes.
Considera levar uma pessoa de confiança contigo. As consultas em que surgem novos dados clínicos podem ser emocionalmente intensas, e é fácil perder detalhes quando estamos ansiosos. Ter alguém ao teu lado a ouvir e a tomar notas faz com que saias com uma ideia mais clara do que foi dito (Silicon Valley Hearing, S14).
Passo 2 — A Anamnese: Perguntas que Te Vão Fazer
A consulta começa normalmente com uma conversa detalhada antes de qualquer exame. O audiologista está a construir uma imagem completa do teu zumbido e dos fatores que podem estar a provocá-lo.
Espera perguntas sobre: como é o som e há quanto tempo o tens; se está num ouvido, nos dois ou localizado ao centro; se é contínuo ou pulsátil; o que o torna mais forte ou mais fraco; o teu histórico de exposição a ruído; eventuais condições médicas como pressão arterial elevada, doenças cardiovasculares, problemas na mandíbula (as disfunções da ATM podem gerar zumbido), ou histórico de doenças do ouvido; e a lista completa de medicamentos que tomas.
Também te vão perguntar sobre o sono, a concentração, o humor e a ansiedade. Não são perguntas de circunstância. A investigação mostra que o sofrimento psicológico — e não a gravidade audiológica — é o fator que melhor prevê o impacto do zumbido no dia a dia (Park et al., 2023). Duas pessoas com audiogramas muito semelhantes podem ter níveis de angústia completamente diferentes, e isso é importante para definir um plano de tratamento.
O audiologista pode pedir-te para preencher um questionário breve — o Tinnitus Handicap Inventory (THI) ou o Tinnitus Functional Index (TFI). Ambos são instrumentos clínicos validados que avaliam o impacto do zumbido na qualidade de vida em diferentes áreas: bem-estar emocional, concentração, sono e atividades do quotidiano (Boecking et al., 2021). Não é um teste em que passes ou repitas. Serve para estabelecer uma linha de base, de modo a que qualquer melhoria — ou agravamento — possa ser acompanhada de forma objetiva ao longo do tempo.
A fase de anamnese dura normalmente entre 20 a 30 minutos. Chegares com apontamentos significa que passas menos tempo a tentar lembrar detalhes sob pressão e mais tempo a aproveitar a conversa.
Passo 3 — O Teste Auditivo: O que Acontece na Cabine Audiométrica
Após a anamnese, passarás para uma avaliação audiométrica — normalmente realizada numa pequena cabine ou sala com tratamento acústico, concebida para bloquear o ruído de fundo.
Na audiometria de tons puros, vais usar auscultadores e premir um botão (ou levantar a mão) cada vez que ouvires um som. Os sons variam em tonalidade e volume, mapeando o som mais fraco que consegues detetar nas diferentes frequências. É o teste auditivo padrão com que a maioria das pessoas já se deparou em algum momento. Avalia a audição na gama dos 250 aos 8.000 Hz.
O audiologista também realizará medições específicas para o zumbido. O acoplamento de tonalidade consiste em reproduzir sons até identificares aquele que mais se assemelha ao teu zumbido — o que ajuda a caracterizar a frequência do zumbido. O acoplamento de intensidade determina o quão alto o zumbido te parece relativamente a sons externos; a maioria dos doentes fica surpreendida ao descobrir que o seu zumbido se regista apenas alguns decibéis acima do limiar auditivo nessa gama de frequências, mesmo quando parece muito mais alto (American, S5). O audiologista pode também medir o nível mínimo de mascaramento — o som externo mais fraco necessário para cobrir o zumbido — o que orienta as decisões de terapia sonora.
Pode igualmente ser realizada uma timpanometria, especialmente se se suspeitar de disfunção do ouvido médio ou de problemas na trompa de Eustáquio. Este exame utiliza uma pequena sonda para medir a mobilidade do tímpano, verificando a existência de líquido ou problemas de pressão no ouvido médio (National, 2020).
A perda auditiva está presente em cerca de 90% das pessoas com zumbido crónico (Shapiro, 2021). Identificá-la — e o seu padrão ao longo das frequências — é um dos passos mais importantes na definição de um plano de tratamento.
Passo 4 — Os Resultados e o Plano de Gestão: O Que Acontece a Seguir
Após os testes, o audiologista vai sentar contigo e analisar os resultados. Vai explicar o que a avaliação auditiva revela, o que as medições do zumbido indicam e quais são as opções a partir daqui.
Dependendo dos resultados, as opções de gestão podem incluir:
- Terapia sonora: som de fundo ou ruído branco para reduzir o contraste do zumbido, especialmente útil durante a noite
- Aparelhos auditivos: se houver perda auditiva, restaurar o estímulo sonoro reduz a sobreatividade compensatória do cérebro que alimenta a perceção do zumbido (Shapiro, 2021)
- Encaminhamento para TCC ou Terapia de Reabilitação do Zumbido (TRT): para pacientes cujo zumbido causa sofrimento significativo, os programas estruturados de base psicológica ou de habituação têm evidências que os suportam
- Orientação sobre estilo de vida e sono: passos práticos para reduzir o impacto do zumbido no dia a dia
- Encaminhamento para ORL ou neurologia: se estiverem presentes sinais de alerta (ver a secção seguinte)
E agora a pergunta que os pacientes mais receiam fazer: e se os testes forem normais?
Um audiograma normal não significa que não há nada de errado. A audiometria de tons puros convencional tem limitações conhecidas na deteção de lesões cocleares subtis. Um estudo com pacientes com zumbido e audição clinicamente normal revelou que 75,6% apresentavam pelo menos uma anomalia audiológica subclínica mensurável quando eram utilizados testes mais detalhados — e 35,4% tinham perda auditiva nas altas frequências que os testes convencionais não detetaram (Park et al., 2023). Uma revisão sistemática confirmou de forma independente que a audiometria convencional não consegue detetar de forma fiável a perda auditiva oculta ou a sinaptopatia coclear, um tipo de lesão nervosa que afeta o processamento do som mesmo quando os limiares auditivos básicos parecem normais (Barbee et al., 2018).
Um audiograma normal, em suma, não é uma recusa de tratamento. É um ponto de partida. O VA/DoD Clinical Practice Guideline (2024) orienta explicitamente os clínicos a não dizerem aos pacientes com zumbido que «não há nada a fazer» — porque existe sempre um próximo passo. A maioria dos pacientes sai da primeira consulta com um plano de gestão, não com um «espere para ver».
Sinais de Alerta que o Audiologista Vai Observar
Parte do papel do audiologista é identificar resultados que necessitem de investigação especializada. Perceber por que razão certas perguntas são feitas pode tornar o processo menos misterioso.
Os sinais de alerta que justificariam um encaminhamento incluem:
- Zumbido apenas num ouvido (unilateral): pode indicar uma causa estrutural que requer imagiologia, como um neuroma acústico
- Zumbido pulsátil (rítmico, a acompanhar o batimento cardíaco): pode refletir uma causa vascular e requer normalmente imagiologia, incluindo ressonância magnética ou avaliação Doppler (AWMF, S7)
- Zumbido de início súbito com perda auditiva: possível perda auditiva neurossensorial súbita, que é tratada como uma urgência médica — o encaminhamento imediato para ORL está indicado (National, 2020)
- Perda auditiva assimétrica no audiograma: uma perda maior num ouvido do que no outro justifica investigação adicional
- Zumbido acompanhado de vertigem ou sintomas neurológicos: pode necessitar de avaliação especializada
Identificar um sinal de alerta não é um mau resultado. Abre o caminho para uma avaliação e tratamento direcionados. A grande maioria dos pacientes que vêm a uma primeira consulta por zumbido não terá nenhum destes achados.
Pontos-Chave: O Que Recordar
- Uma primeira consulta de zumbido com um audiologista dura normalmente entre 60 a 90 minutos e inclui a história clínica, uma avaliação auditiva completa e avaliações específicas do zumbido.
- Cerca de 90% das pessoas com zumbido crónico têm algum grau de perda auditiva coexistente — o audiograma é um dos passos mais importantes da avaliação.
- Um audiograma normal não significa «não há nada de errado» — os testes convencionais podem não detetar lesões cocleares que uma avaliação mais detalhada identificaria (Park et al., 2023).
- Sinais de alerta como zumbido pulsátil ou unilateral serão registados e encaminhados adequadamente — a maioria das pessoas não os terá.
- Deves sair da consulta com um plano de gestão e próximos passos concretos, não apenas com uma indicação para esperar e ver.
A primeira consulta não é o fim do caminho. É o momento em que o audiologista começa a ajudar-te a perceber o que está a acontecer e o que pode ser feito — e isso é um passo significativo em frente, seja qual for o resultado.
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Medicamentos que Causam Zumbido: O Guia Completo sobre Ototoxicidade
Será que o Teu Medicamento Está a Causar Esse Zumbido?
Perceber que um medicamento do qual dependes pode ser responsável por um novo zumbido ou bzzz nos ouvidos pode ser perturbador. Não estás a imaginar — e não és o único a fazer essa ligação. O zumbido induzido por medicamentos é uma das poucas formas de zumbido com uma causa claramente identificável, e essa é uma informação genuinamente útil. Saber qual classe de medicamento está envolvida diz-te muito sobre se o zumbido tende a desaparecer, e qual deve ser o teu próximo passo. Este artigo percorre as principais classes de medicamentos, o que a reversibilidade realmente significa em cada caso, e apresenta um plano de ação claro.
Que Medicamentos Podem Causar Zumbido?
Mais de 200 medicamentos são classificados como ototóxicos, mas a distinção mais importante para os doentes é a reversibilidade: o zumbido causado por aspirina em doses elevadas ou AINEs geralmente desaparece quando o medicamento é interrompido, ao passo que os danos provocados por antibióticos aminoglicosídeos e quimioterapia com cisplatina são frequentemente permanentes — tornando o aparecimento de zumbido durante esses tratamentos um motivo urgente para contactar o teu médico prescritor (Seligmann et al. (1996)).
As principais classes de medicamentos associadas ao zumbido incluem:
- Aspirina em doses elevadas e salicilatos — a causa reversível mais frequentemente encontrada
- AINEs (ibuprofeno, naproxeno, diclofenac) — reversíveis em doses elevadas ou com uso prolongado
- Antibióticos aminoglicosídeos (gentamicina, tobramicina, amicacina, neomicina) — risco de dano permanente
- Quimioterapia à base de platina (cisplatina, carboplatina) — risco elevado de dano permanente
- Diuréticos da ansa (furosemida, ácido etacrínico) — variável; a via de administração e a dose têm um peso significativo
- Antimaláricos (quinina, cloroquina) — geralmente reversíveis
- Antibióticos macrólidos (azitromicina, eritromicina, claritromicina) — risco aumentado confirmado por evidências recentes em grande escala
- Certos medicamentos cardíacos e psicotrópicos — menos comuns; reversibilidade dependente da classe
A palavra “ototóxico” significa simplesmente tóxico para o ouvido interno. O zumbido é muitas vezes o primeiro sinal — pode aparecer antes de qualquer alteração mensurável na audição ser detetada num teste auditivo padrão (Seligmann et al. (1996)).
A Questão da Reversibilidade: Risco Temporário vs. Permanente
Compreender a reversibilidade resume-se a um facto biológico: as células ciliadas da cóclea humana não se regeneram. Quando um medicamento as destrói, o dano é permanente. Quando um medicamento perturba temporariamente a sua função sem as destruir, o efeito pode reverter após a eliminação do medicamento pelo organismo.
Tipicamente reversível
Aspirina em doses elevadas e salicilatos atuam inibindo a síntese de prostaglandinas na cóclea, o que perturba a função da prestina — uma proteína motora nas células ciliadas externas. As células não são destruídas; são temporariamente alteradas. O zumbido induzido pela aspirina geralmente requer doses de cerca de 2.000 mg por dia ou mais antes que os efeitos cocleares apareçam (Federspil (1990)). Ao reduzir a dose ou suspender o medicamento, o zumbido normalmente desaparece. A aspirina em dose baixa (75–100 mg) usada na prevenção cardiovascular não acarreta este risco: um grande estudo de coorte com 69.455 mulheres concluiu que o uso de aspirina em dose baixa não estava associado a um maior risco de zumbido (Curhan et al., conforme citado na base de evidências científicas).
Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) em doses elevadas ou prolongadas apresentam um mecanismo semelhante, dependente da dose. O risco é mais relevante para pessoas que tomam AINEs regularmente em doses elevadas para dor crónica, e não para quem toma doses normais ocasionalmente para uma dor de cabeça.
Quinina e antimaláricos provocam zumbido através de um mecanismo que também perturba a função das células ciliadas externas sem destruição permanente na maioria dos casos. O zumbido causado por estes medicamentos é tipicamente reversível, embora nenhum ensaio clínico controlado moderno tenha confirmado taxas de reversão precisas — é importante gerir as expectativas em conformidade.
Risco de dano permanente
Os antibióticos aminoglicosídeos são absorvidos seletivamente pelas células ciliadas externas da cóclea, onde geram espécies reativas de oxigénio que causam morte celular irreversível (Federspil (1990)). As taxas de zumbido nos estudos variam entre 0–53%, dependendo da dose, duração e exposições simultâneas (Diepstraten et al. (2021)). O dano não reverte quando o antibiótico é suspenso, pois as células deixaram de existir.
A cisplatina e a carboplatina destroem as células ciliadas da cóclea através de uma combinação de dano direto ao DNA e stresse oxidativo, começando nas frequências acima de 6.000 Hz e progredindo ao longo do tempo para as frequências da fala. A literatura publicada reporta défice auditivo em até 80% dos doentes tratados em algumas séries, com o efeito a continuar ou a agravar-se após o fim do tratamento (Janowiak-Majeranowska et al. (2024)). O início tardio — em que a audição piora meses após a última dose — foi documentado, sendo recomendada monitorização até 10 anos após o tratamento.
O ácido etacrínico (um diurético de ansa) combinado com aminoglicosídeos é uma associação de risco particularmente elevado: os dois medicamentos atuam de forma sinérgica, causando juntos mais danos do que cada um causaria isoladamente.
O Zumbido como Sinal de Alerta Precoce: Por Que Deves Agir Rapidamente
Há algo que a maioria dos artigos sobre este tema deixa de fora, e que tem importância prática.
O dano ototóxico segue uma sequência previsível. Começa nas frequências mais altas, tipicamente 8.000 Hz e acima, bem fora do intervalo da conversa normal. Os testes auditivos padrão — do tipo realizado na maioria das clínicas — medem apenas de 250 a 8.000 Hz. Isto significa que, quando um audiograma de rotina deteta um problema, pode já ter ocorrido um dano coclear significativo (Campbell & Le (2018)).
O zumbido muitas vezes aparece antes de esse limiar ser ultrapassado. É a cóclea a sinalizar sofrimento antes de o dano se ter estendido ao intervalo que um teste padrão consegue detetar. Para doentes a fazer aminoglicosídeos, cisplatina ou diuréticos de ansa intravenosos em doses elevadas, um zumbido novo não é um efeito secundário a suportar em silêncio — é um motivo para contactar o teu médico prescritor no próprio dia.
As diretrizes da American Speech-Language-Hearing Association afirmam claramente: se surgirem quaisquer sintomas de toxicidade coclear durante o tratamento com estes medicamentos, o médico deve ser notificado de imediato (ASHA (1994)). A audiometria de altas frequências alargada, que testa acima do limite padrão de 8.000 Hz, pode detetar danos precoces a tempo de permitir uma resposta clínica.
Isto não tem como objetivo causar alarme. O ponto é precisamente o oposto: detetar um sinal cedo dá a ti e à tua equipa clínica mais opções. Esperar para ver se as coisas melhoram por si próprias é a abordagem com maior probabilidade de resultar em danos permanentes e evitáveis.
Se desenvolveres zumbido novo enquanto tomas cisplatina, antibióticos aminoglicosídeos ou diuréticos intravenosos em doses elevadas, contacta o teu médico prescritor com prontidão — não esperes por uma consulta de rotina.
O Que Aumenta o Teu Risco? Fatores que Amplificam a Ototoxicidade
Nem todas as pessoas expostas a um medicamento ototóxico desenvolvem zumbido ou perda de audição. Vários fatores aumentam a probabilidade de dano coclear:
- Insuficiência renal. Muitos medicamentos ototóxicos são eliminados pelos rins. Quando a função renal está reduzida, os níveis do medicamento no sangue acumulam-se mais e permanecem elevados durante mais tempo, aumentando a exposição coclear. Isto aplica-se particularmente aos aminoglicosídeos e aos diuréticos de ansa (Seligmann et al. (1996)).
- Combinação de medicamentos ototóxicos. Tomar um antibiótico aminoglicosídeo em conjunto com um diurético de ansa é a combinação clássica de alto risco — os dois medicamentos interagem de forma sinérgica, e o dano coclear resultante é maior do que qualquer um dos medicamentos produziria isoladamente (Federspil (1990)).
- Dose e duração. Doses mais elevadas e cursos de tratamento mais prolongados aumentam consistentemente o risco ototóxico em todas as classes de medicamentos. Esta é uma das razões pelas quais se recomenda monitorização audiológica regular para doentes em cursos prolongados de cisplatina ou aminoglicosídeos.
- Administração em bólus intravenoso. No caso dos diuréticos de ansa, a forma como o medicamento é administrado é importante. Um bólus intravenoso rápido acarreta um risco ototóxico significativamente maior do que a infusão IV lenta ou a administração oral, porque as concentrações máximas do medicamento no fluido coclear são muito mais elevadas (Federspil (1990)).
- Suscetibilidade genética. Algumas pessoas têm uma variante no gene mitocondrial MT-RNR1 que aumenta dramaticamente a sensibilidade aos antibióticos aminoglicosídeos. Se tu ou algum familiar tiver sofrido perda auditiva grave após um curso curto de antibióticos, vale a pena referir isto ao teu médico antes de qualquer tratamento futuro com aminoglicosídeos (May et al. (2023)).
A combinação de insuficiência renal, um antibiótico aminoglicosídeo e um diurético de ansa é a que apresenta o maior risco ototóxico conhecido. Se estiveres nesta situação, pergunta ao teu médico prescritor se os três são realmente necessários em simultâneo.
O Que Deves Fazer Se Achares Que o Teu Medicamento Está a Causar Zumbido?
A regra mais importante primeiro: não interrompas um medicamento prescrito sem falar com o teu médico prescritor. A American Tinnitus Association é direta neste ponto — o risco de parar um medicamento pode ser muito superior a qualquer benefício potencial na redução do zumbido. Isto é especialmente verdade para antibióticos a tratar uma infeção ativa, quimioterapia ou medicamentos para gerir uma condição cardiovascular ou neurológica grave.
Aqui está uma sequência prática:
Passo 1: Regista a cronologia. Anota quando o zumbido começou, se apareceu pouco depois de iniciares o medicamento ou após um aumento de dose, e se é constante, intermitente ou está a mudar. Estas informações ajudarão o teu médico prescritor a avaliar a probabilidade de uma ligação ao medicamento.
Passo 2: Contacta o teu médico prescritor com prontidão. Não esperes por uma consulta de seguimento de rotina se o zumbido começou durante um curso de aminoglicosídeos, cisplatina ou diuréticos IV em doses elevadas. Para medicamentos sem receita (ibuprofeno, aspirina), uma chamada ao teu médico de família é o mais adequado, em vez de um contacto de urgência.
Passo 3: Pergunta sobre monitorização audiológica. Se estiveres a fazer um curso de cisplatina ou aminoglicosídeos, pergunta ao teu médico prescritor se foi agendada uma audiometria de altas frequências alargada de base. As diretrizes da ASHA recomendam que seja feita antes ou nas 72 horas seguintes à primeira dose de aminoglicosídeo, e não mais tarde do que 24 horas após a primeira dose de cisplatina (ASHA (1994)). Se a monitorização não foi agendada, pergunta agora.
Passo 4: Pergunta sobre alternativas. Se o medicamento ototóxico está a ser utilizado para uma indicação não urgente ou não crítica, pergunta ao teu médico prescritor se existe uma alternativa de menor risco. É uma pergunta razoável e um bom médico não se sentirá ofendido por ela.
Uma nota sobre medicamentos sem receita: o ibuprofeno e a aspirina tomados em doses padrão para dores ocasionais raramente causam zumbido. O risco surge com o uso prolongado em doses moderadas a elevadas. Se tomares AINEs ou aspirina regularmente, vale a pena mencioná-lo ao teu médico de família na próxima consulta.
Se desenvolveres zumbido enquanto tomas um medicamento prescrito, o teu instinto pode ser parar o medicamento de imediato. Resiste a esse impulso. Contacta primeiro o teu médico prescritor — ele pode avaliar se o medicamento é a causa e se existe uma alternativa mais segura.
Pontos-Chave: O Que É Mais Importante
Três coisas que vale a pena recordar de tudo o que foi dito acima:
Primeiro, muitos medicamentos associados ao zumbido — particularmente analgésicos sem receita como ibuprofeno e aspirina em doses não prescritas — causam um zumbido reversível quando a dose é reduzida ou interrompida. O risco nas doses padrão é baixo.
Segundo, o zumbido durante um curso de antibióticos aminoglicosídeos, cisplatina ou diuréticos intravenosos em doses elevadas é um sinal de alerta precoce que justifica um contacto com o teu médico prescritor no próprio dia. Estes medicamentos podem causar dano coclear permanente, e o zumbido muitas vezes aparece antes de esse dano se tornar detetável num teste auditivo padrão.
Terceiro, nunca interrompas por conta própria um medicamento prescrito. Envolve sempre o teu médico prescritor ou especialista.
O zumbido induzido por medicamentos é uma das formas mais tratáveis de zumbido — porque tem uma causa identificável. Saber quais os medicamentos que apresentam risco, compreender o que a reversibilidade significa na prática e saber quando agir coloca-te numa posição muito mais forte do que a maioria das pessoas que experienciam o início do zumbido. Esse conhecimento é o propósito deste artigo.
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Zumbido nos Ouvidos em Adultos Mais Velhos: Como Gerir com as Alterações Auditivas Relacionadas com a Idade
Quando o Zumbido nos Ouvidos Parece Mais Uma Coisa com que Lidar
Cerca de 1 em cada 5 adultos mais velhos tem zumbido nos ouvidos e, quando coexiste com a perda auditiva relacionada com a idade, usar aparelhos auditivos é o passo mais impactante. Um grande estudo populacional concluiu que a perda auditiva praticamente duplica a probabilidade de zumbido (OR 2,27), e as evidências mostram que os aparelhos auditivos reduzem o impacto do zumbido, melhoram a qualidade do sono e podem ajudar a proteger a função cognitiva (Oosterloo et al. (2021)). Se és um adulto mais velho a lidar com zumbido, ou a apoiar alguém que está, a boa notícia é que existem passos práticos com base em evidências.
Quando o Zumbido nos Ouvidos Parece Mais Uma Coisa com que Lidar
O zumbido surge para muitos adultos mais velhos numa altura em que a vida já parece mais agitada por preocupações de saúde: um teste auditivo que não correu bem, noites mais difíceis de atravessar e conversas que exigem mais esforço do que antes. Um zumbido ou burburinho persistente por cima de tudo isso pode parecer esmagador, e é completamente compreensível que assim seja.
O que este artigo aborda é o que torna a gestão do zumbido mais tarde na vida diferente de geri-lo aos 40 anos — os desafios específicos que os conselhos habituais tendem a ignorar, as evidências por trás dos aparelhos auditivos como mais do que um dispositivo para ouvir melhor, e os passos práticos com maior probabilidade de fazer uma diferença real neste grupo etário.
Porque é que o Zumbido é Mais Comum — mas Não Inevitável — em Adultos Mais Velhos
A razão mais comum para o aparecimento do zumbido em adultos mais velhos é a perda auditiva relacionada com a idade, também chamada presbiacusia. Com o tempo, as pequenas células ciliadas do ouvido interno, responsáveis por converter as ondas sonoras em sinais elétricos, deterioram-se gradualmente. À medida que o sinal auditivo que chega ao cérebro enfraquece, o cérebro compensa aumentando a sua própria sensibilidade interna — um processo que os investigadores chamam ganho central. O resultado pode ser sons fantasma: zumbidos, bururinhos ou assobios que não têm nenhuma fonte externa.
Um grande estudo de Rotterdam com 6.098 adultos mais velhos concluiu que cerca de 1 em cada 5 (21,4%) tinha zumbido, e que ter uma perda auditiva mensurável mais do que duplicou a probabilidade de o experienciar (OR 2,27) (Oosterloo et al. (2021)). As alterações cardiovasculares que acompanham o envelhecimento — redução do fluxo sanguíneo para o ouvido interno — e a exposição a determinados medicamentos também podem ter um papel, como se discute abaixo.
Aqui está o que surpreende muitas pessoas: no mesmo estudo, a prevalência do zumbido foi aproximadamente constante entre diferentes grupos etários dentro da população de adultos mais velhos, apesar de a perda auditiva aumentar de forma constante com a idade. O zumbido está fortemente associado ao envelhecimento, mas não é simplesmente uma consequência inevitável de ficar mais velho (Oosterloo et al. (2021)). Essa distinção é importante: significa que existem fatores que podes abordar, em vez de apenas um relógio que não consegues parar.
Algumas causas são reversíveis. A acumulação de cerúmen é uma causa comum e facilmente tratável — um médico ou enfermeiro pode removê-lo rapidamente. Alguns medicamentos podem causar ou agravar o zumbido (mais sobre isso abaixo), e ajustá-los sob supervisão médica pode por vezes reduzir os sintomas. Outras causas, como a perda gradual das células ciliadas da cóclea, não são reversíveis, mas o zumbido que delas resulta é ainda assim muito manejável.
O zumbido é comum em adultos mais velhos, mas não é inevitável. A perda auditiva praticamente duplica o risco — e algumas causas, como a acumulação de cerúmen ou determinados medicamentos, são reversíveis.
Os Desafios Extra que os Adultos Mais Velhos Enfrentam
Os conselhos gerais para o zumbido — reduzir o stress, experimentar ruído branco à noite, consultar um especialista — são razoáveis, mas não contemplam três desafios específicos que tornam o zumbido mais difícil de gerir na fase mais avançada da vida.
Polimedicação e medicamentos ototóxicos
Muitos adultos mais velhos tomam vários medicamentos em simultâneo, e um número significativo de fármacos habitualmente prescritos pode afetar a audição ou agravar o zumbido. Um grande estudo americano (o Beaver Dam Offspring Study) concluiu que 84 a 91% dos adultos mais velhos tomavam pelo menos um medicamento com potencial ototóxico — entre eles, AINEs (como o ibuprofeno e a aspirina) tomados por cerca de 75%, e diuréticos da ansa por cerca de 35,6% dos participantes. Certos antibióticos (nomeadamente os aminoglicosídeos) e alguns agentes de quimioterapia também apresentam risco ototóxico.
Isto não significa que estes medicamentos devam ser interrompidos. Muitos são prescritos para condições graves e os benefícios superam frequentemente o risco. O passo prático é colocar a questão ao seu médico de família: pergunte se algum dos medicamentos que toma atualmente pode estar a contribuir para o seu zumbido e se existem alternativas. Enquadrar a conversa como uma revisão da medicação — em vez de pedir para parar um medicamento específico — é geralmente a abordagem mais produtiva.
Nunca interrompa ou reduza um medicamento prescrito por causa do zumbido sem falar primeiro com o seu médico de família. Alguns medicamentos ototóxicos tratam condições em que a interrupção súbita acarreta riscos sérios para a saúde.
Perturbação do sono
A qualidade do sono tende a tornar-se mais frágil com a idade, independentemente do zumbido. Acrescentar um zumbido persistente a uma arquitetura de sono já mais leve agrava rapidamente o problema. Uma meta-análise de sete estudos envolvendo mais de 3.000 doentes com zumbido concluiu que cerca de 53,5% apresentavam perturbações do sono (Gu et al. (2022)). Embora este valor abranja adultos de todas as idades e o estudo apresentasse elevada variabilidade entre amostras, dados objetivos da coorte de Roterdão, especificamente em adultos mais velhos, confirmaram a relação: o zumbido estava independentemente associado a uma latência de início do sono mais longa e, nas pessoas com zumbido e perda auditiva, a estabilidade do ritmo circadiano também era afetada (de et al. (2023)).
O silêncio do quarto amplifica a perceção do zumbido, tornando mais difícil adormecer. Medidas práticas — manter um som de fundo suave durante a noite, manter um horário de sono regular e evitar o silêncio total à hora de dormir — podem reduzir o impacto do som no momento em que mais importa.
Isolamento social e retraimento
Quando a dificuldade auditiva e o zumbido se combinam, as situações sociais tornam-se genuinamente esgotantes. Acompanhar uma conversa numa sala barulhenta exige um esforço enorme; o zumbido acrescenta uma camada de som indesejada que compete com a fala. Com o tempo, muitas pessoas vão reduzindo discretamente a frequência com que socializam — menos encontros, menos televisão, por vezes quartos separados. Estas adaptações fazem sentido a curto prazo, mas o retraimento social prolongado acarreta os seus próprios riscos.
Algumas investigações sugerem que a combinação de perda auditiva, zumbido e o isolamento social que podem provocar está associada a um aumento da carga cognitiva e pode contribuir para um declínio cognitivo acelerado nos adultos mais velhos (Jafari et al. (2019)). A relação não está totalmente estabelecida — são ainda necessários estudos longitudinais para confirmar a direção causal — mas é uma razão significativa para tratar o zumbido e a perda auditiva de forma ativa, em vez de simplesmente os aceitar.
Aparelhos Auditivos: Não São Só para Ouvir Melhor
Para os adultos mais velhos que têm tanto zumbido como perda auditiva relacionada com a idade, os aparelhos auditivos são a intervenção com maior evidência científica disponível — e atuam em vários níveis, não apenas na amplificação do som.
Ao restaurar o input auditivo, os aparelhos auditivos reduzem a sobreamplificação compensatória do cérebro que contribui para o zumbido. O enriquecimento sonoro resultante torna o zumbido menos saliente no dia a dia: quando há mais som real para processar, o som fantasma passa para segundo plano. Muitos modelos de aparelhos auditivos atuais incluem também funcionalidades integradas de mascaramento do zumbido — sons programáveis que proporcionam alívio adicional, especialmente à noite ou em ambientes silenciosos.
Um estudo prospetivo com 100 pacientes adaptados com aparelhos auditivos verificou que o grupo com zumbido e perda auditiva apresentou melhorias significativamente maiores do que o grupo com perda auditiva apenas em duas áreas específicas: memória de trabalho (avaliada pelo teste Reading Span, p inferior a 0,001) e qualidade do sono (avaliada pelo Pittsburgh Sleep Quality Index, p inferior a 0,001) (Zarenoe et al. (2017)). Não foram ganhos marginais. Os índices de gravidade do zumbido também melhoraram significativamente no seguimento em comparação com a linha de base.
Existe ainda uma dimensão mais ampla relacionada com a saúde cognitiva. Algumas investigações sugerem que tratar a perda auditiva com aparelhos auditivos pode ajudar a reduzir o declínio cognitivo, particularmente em pessoas com maior risco de base (Jafari et al. (2019)). Uma análise secundária de um grande ensaio clínico norte-americano (ACHIEVE 2025) verificou que o uso de aparelhos auditivos estava associado a um declínio cognitivo 62% mais lento no quartil de maior risco dos participantes. Trata-se de uma análise de subgrupo post-hoc, pelo que não deve ser considerada definitiva — mas aponta numa direção consistente, e uma revisão sistemática concluiu que a amplificação auditiva pode melhorar a cognição e a qualidade de vida, a par da redução do impacto do zumbido (Malesci et al. (2021)).
Se está a pensar obter um aparelho auditivo, o ponto de partida é uma avaliação audiológica. O seu médico de família pode encaminhá-lo, ou pode procurar diretamente um serviço de audiologia. As clínicas de audiologia privadas também são uma opção para quem prefere um acesso mais rápido. Se está a apoiar um familiar mais velho que resiste aos aparelhos auditivos por questões de estigma ou preocupações com o custo, vale a pena partilhar a evidência sobre os múltiplos benefícios — sono, cognição e alívio do zumbido, para além da melhoria da audição. Os aparelhos modernos são consideravelmente mais pequenos e discretos do que os modelos mais antigos.
Uma das coisas que os pacientes com zumbido e perda auditiva costumam dizer depois de serem adaptados com aparelhos auditivos é que não tinham percebido o quanto a combinação estava a afetar o seu sono e a sua concentração. A melhoria do zumbido pode parecer um efeito secundário — um efeito muito bem-vindo.
Outras Abordagens de Gestão Eficazes para Adultos Mais Velhos
Os aparelhos auditivos são o ponto de partida com maior evidência científica quando existe perda auditiva, mas não são a única opção — e nem todos os adultos mais velhos com zumbido apresentam perda auditiva significativa.
Enriquecimento sonoro em casa
Máquinas de ruído branco de mesa, uma rádio a tocar suavemente em volume baixo, ou aplicações para smartphone que geram sons ambientes (chuva, uma ventoinha, sons da natureza) podem reduzir a saliência do zumbido — especialmente à noite. O princípio é o mesmo que com os aparelhos auditivos: fornecer som de fundo torna o ruído fantasma menos dominante. Este é um primeiro passo acessível para quem ainda não tem aparelhos auditivos ou está à espera de uma consulta de audiologia. A revisão Cochrane sobre terapia sonora encontrou melhorias clinicamente significativas dentro dos grupos no que diz respeito à gravidade do zumbido em pessoas que usam dispositivos de amplificação e enriquecimento sonoro, embora não tenha conseguido estabelecer superioridade em relação a outras intervenções ativas (Sereda et al. (2018)).
Terapia cognitivo-comportamental e TRT
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) está bem estabelecida para reduzir o sofrimento causado pelo zumbido e é recomendada nas orientações clínicas. A TCC não reduz o volume do zumbido, mas aborda o sofrimento e a atenção habitual que tornam o zumbido perturbador. A evidência que apoia a TCC para o zumbido em geral é sólida, embora os ensaios específicos para pessoas mais velhas sejam limitados. A TCC adaptada para adultos mais velhos pode ser realizada presencialmente ou em formato digital, tornando-a acessível a quem tem limitações de mobilidade ou dificuldades em deslocar-se. A Terapia de Reabilitação do Zumbido (TRT) combina terapia sonora com aconselhamento estruturado e está também disponível através de serviços especializados de audiologia em muitas regiões.
O acesso a estas terapias varia consoante a região. O seu médico de família pode orientá-lo para os serviços mais adequados na sua área.
Gestão cardiovascular e da saúde em geral
Como a redução do fluxo sanguíneo para o ouvido interno é um fator contribuinte em alguns casos de zumbido relacionado com a idade, gerir os fatores de risco cardiovascular — tensão arterial, exercício físico, alimentação — é um passo de fundo relevante. São mudanças que a maioria dos adultos mais velhos já é aconselhada a fazer por outras razões; o zumbido é simplesmente mais uma razão pela qual são importantes.
Tratar o sono diretamente
Se o sono está significativamente perturbado, tratar esse problema de forma direta — em vez de esperar que o zumbido melhore primeiro — pode quebrar um ciclo de reforço mútuo. Evitar o silêncio completo na hora de dormir, manter horários consistentes de deitar e acordar, e limitar o uso de ecrãs antes de dormir são primeiros passos práticos. Se os problemas de sono forem graves, o médico de família pode avaliar se é necessário um encaminhamento específico para o sono.
Quando Consultar um Médico: Sinais de Alerta e Encaminhamentos
A maioria dos casos de zumbido em adultos mais velhos não representa uma urgência médica, mas algumas situações requerem atenção rápida.
Procure ajuda urgente no próprio dia ou nas primeiras 24 horas se:
- O zumbido surgiu de repente acompanhado de uma perda auditiva súbita (nos últimos 30 dias)
- Notar qualquer alteração súbita na sensibilidade ou no movimento facial acompanhada de zumbido
Consulte o seu médico de família dentro de uma a duas semanas se:
- O zumbido está a piorar rapidamente
- Está a causar sofrimento significativo que afeta as atividades do dia a dia
Marque uma consulta de rotina com o seu médico de família se:
- O zumbido está apenas num ouvido
- O zumbido é pulsátil (que bate em sincronia com o seu batimento cardíaco)
- O zumbido é persistente e recente, especialmente sem uma causa óbvia
Todos estes critérios são consistentes com a orientação clínica NICE NG155, que recomenda avaliação audiológica para todos os pacientes que se apresentam com zumbido (National (2020)).
Para qualquer adulto mais velho com zumbido recente, um teste auditivo é um passo de base sensato, mesmo que o zumbido pareça ligeiro. Permite determinar se existe perda auditiva e se os aparelhos auditivos seriam benéficos. O seu médico de família pode encaminhá-lo para um serviço de audiologia ou otorrinolaringologia.
A investigação sugere que as mulheres mais velhas, em particular, podem ter menor probabilidade de ver o seu zumbido investigado. Por isso, se sentir que as suas preocupações foram desvalorizadas, vale a pena ser direta com o seu médico de família e pedir expressamente uma avaliação auditiva e o respetivo encaminhamento.
O Zumbido na Vida Adulta Mais Tardia É Gerível — Comece Pela Sua Audição
O zumbido é comum nos adultos mais velhos, mas não é algo que tenha simplesmente de aceitar sem apoio. A perda auditiva é o fator de risco mais passível de ser tratado: abordá-la com aparelhos auditivos pode reduzir o impacto do zumbido, melhorar o sono e pode apoiar a saúde cognitiva ao longo do tempo. O enriquecimento sonoro, as abordagens baseadas na TCC e uma revisão da medicação com o seu médico de família completam um conjunto prático de ferramentas que vai muito além de simplesmente suportar o ruído.
Se não sabe por onde começar, uma conversa com o seu médico de família e uma avaliação auditiva são os dois passos mais concretos que pode dar hoje. A partir daí, a combinação certa de apoio pode ser definida em função do que é mais importante para si.
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Medicamentos e Gotas para Zumbido no Ouvido Sem Receita: O Que as Embalagens Não Te Contam
Quando estás no corredor de uma farmácia, ou a fazer scroll no Amazon à meia-noite, e uma caixa promete o alívio “#1 Recomendado por Médicos ORL” para o zumbido nos ouvidos, é difícil não a pegar. Não estás a ser ingénuo. Estás a responder a uma embalagem desenhada por profissionais que sabem exatamente o quão desesperante o zumbido pode tornar-se para uma pessoa.
Nenhum suplemento ou gota auricular para zumbido vendido sem receita tem aprovação da FDA para o tratamento do zumbido. Uma análise da Universidade de Stanford de 2019 concluiu que todos os produtos OTC para zumbido examinados faziam afirmações de alívio sem qualquer fundamento, e alguns colírios auriculares OTC contêm ingredientes que podem agravar o zumbido. Este artigo explica o que as embalagens têm legalmente permissão para afirmar, o que a evidência científica realmente demonstra, e onde se escondem os verdadeiros riscos. As conclusões principais podem ser frustrantes: nenhum medicamento para zumbido sem receita tem aprovação da FDA, a evidência clínica para todos os principais suplementos OTC para zumbido é inexistente ou negativa, e alguns colírios auriculares OTC contêm ingredientes que podem piorar o zumbido. Saber isto agora poupa-te dinheiro, protege a tua audição e aponta-te para opções que têm evidência científica por detrás.
Medicamentos para zumbido sem receita: a resposta direta
Nenhum suplemento ou gota auricular para zumbido vendido sem receita tem aprovação da FDA para o tratamento do zumbido. Uma análise de mercado da Universidade de Stanford de 2019 concluiu que todos os produtos OTC para zumbido examinados utilizavam afirmações infundadas de alívio, com vitaminas e minerais comuns reembalados a um preço significativamente mais elevado (Vendra et al., 2019). Alguns colírios auriculares comercializados para o zumbido contêm ingredientes como derivados de quinina e mercúrio homeopático, que estão associados a ototoxicidade (dano no ouvido interno ou no nervo auditivo que pode causar ou agravar a perda de audição e o zumbido) em doses terapêuticas. Se procuras um produto que tenha superado testes clínicos rigorosos para o alívio do zumbido, esse produto simplesmente não existe nas prateleiras das farmácias.
Como a lei permite que as embalagens te enganem: a lacuna do DSHEA
A razão pela qual as embalagens de suplementos podem fazer afirmações que soam tão convincentes sem qualquer prova resume-se a uma lei norte-americana de 1994: o Dietary Supplement Health and Education Act, conhecido como DSHEA. Ao abrigo do DSHEA, os suplementos não precisam de obter aprovação prévia da FDA antes de chegarem ao mercado. Um fabricante não precisa de demonstrar que um produto funciona antes de o comercializar. A FDA só pode agir depois de o produto já estar no mercado, e apenas se conseguir provar que o produto é inseguro.
O DSHEA permite uma categoria de afirmações de marketing, chamadas afirmações de “estrutura/função”. É a linguagem por trás de frases como “apoia a saúde do ouvido interno” ou “promove uma função auditiva saudável”. Estas afirmações não são afirmações medicamentosas, que exigiriam prova de eficácia. São afirmações sobre como um produto poderia teoricamente apoiar um processo normal do organismo, e não requerem qualquer evidência clínica para as fundamentar. É assim que os suplementos OTC para zumbido conseguem fazer afirmações confiantes sem qualquer prova clínica.
A lei exige uma salvaguarda: um aviso a declarar que “Esta afirmação não foi avaliada pela Food and Drug Administration. Este produto não se destina a diagnosticar, tratar, curar ou prevenir qualquer doença.” Procura-o em letras pequenas, normalmente no verso da embalagem, frequentemente num tamanho de letra que requer um esforço deliberado para ler.
Esse aviso é a frase mais importante de toda a embalagem. Indica que as afirmações na parte da frente da caixa não foram testadas nem aprovadas por qualquer entidade reguladora. Um produto que diz “apoia o alívio do zumbido nos ouvidos” na frente e tem este aviso no verso está a dizer-te legalmente, em dois tamanhos de letra diferentes, que a FDA não confirmou que faz alguma coisa pelo zumbido.
Uma análise de mercado da Universidade de Stanford de 2019 concluiu que todos os produtos OTC para zumbido examinados utilizavam exatamente este manual: linguagem de estrutura/função, preços premium e a aparência de endosso clínico, enquanto vendiam ingredientes disponíveis genericamente a uma fração do custo (Vendra et al., 2019).
Desvendando os produtos OTC mais comuns para zumbido
Lipo-Flavonoid
Lipo-Flavonoid é provavelmente o suplemento OTC para zumbido mais amplamente comercializado nos Estados Unidos. A sua embalagem tem destacado, durante anos, a frase “#1 Recomendado por Otorrinolaringologistas”.
Em dezembro de 2015, a National Advertising Division (NAD) investigou essa alegação e concluiu que ela não tinha base comprovada. A pesquisa com médicos utilizada como suporte perguntava apenas sobre o uso do produto como tratamento adjuvante para zumbido associado à doença de Ménière (um distúrbio do ouvido interno que causa vertigem, perda auditiva e zumbido), e não para o zumbido em geral. A marca recorreu ao National Advertising Review Board (NARB), que manteve a conclusão central: os estudos de suporte da Clarion “não conseguiram cumprir nem mesmo o requisito mais flexível [da FTC/FDA]” (NAD Case #5977, dezembro de 2015; NARB Appeal #241). O NARB permitiu apenas a afirmação muito mais fraca de que o produto “pode proporcionar alívio a alguns consumidores que sofrem de zumbido”.
O único ensaio clínico randomizado e controlado independente do Lipo-Flavonoid, não financiado pelo fabricante, incluiu 40 participantes. Após as desistências, 28 concluíram o estudo. No grupo de controlo que recebeu apenas Lipo-Flavonoid (16 participantes), nenhum paciente apresentou redução nas avaliações do questionário de zumbido. Os investigadores concluíram: “Não foi possível concluir que o manganês ou o Lipoflavonoid Plus sejam um tratamento eficaz para o zumbido” (Rojas-Roncancio et al., 2016).
Um estudo financiado pelo fabricante, posteriormente citado no marketing do produto, foi analisado por um crítico independente que encontrou uma taxa de conclusão de cerca de 7%, o que significa que a grande maioria dos participantes inscritos não terminou o estudo. De acordo com as ressalvas do dossiê, este dado provém de um analista terceiro e não de uma fonte com revisão por pares, pelo que deve ser lido como uma preocupação relatada e não como uma conclusão estabelecida. O que está documentado é que este estudo não foi indexado no PubMed e foi conduzido por um único autor com ligações à indústria não divulgadas.
Em novembro de 2025, uma ação coletiva contra o Lipo-Flavonoid alega marketing enganoso relativamente às afirmações “#1 Recomendado por Otorrinolaringologistas” e “Clinicamente Demonstrado para Ajudar a Gerir o Zumbido”, fazendo referência às decisões anteriores da NAD e do NARB (South Shore Press, 2025).
Ginkgo biloba (incluindo produtos como a Arches Tinnitus Formula)
O Ginkgo biloba é o suplemento mais estudado para o zumbido. O veredicto dessa investigação é claro: não funciona. Uma revisão sistemática Cochrane de 2022 agrupou os resultados de 12 ensaios clínicos randomizados e controlados, envolvendo 1.915 participantes. O Ginkgo biloba demonstrou pouco ou nenhum efeito em comparação com o placebo na gravidade do zumbido entre os 3 e os 6 meses, com uma diferença média de -1,35 numa escala de 0 a 100 (evidência de muito baixa certeza) (Sereda et al., 2022). O American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery (AAO-HNS) recomenda explicitamente nas suas diretrizes de prática clínica que não se utilize ginkgo biloba para o zumbido persistente e incómodo.
O ginkgo não é isento de riscos. Pode aumentar o risco de hemorragia, em especial em pessoas que tomam anticoagulantes ou medicamentos antiplaquetários. Fale com o seu médico antes de o tomar, sobretudo se estiver a usar anticoagulantes.
Suplementos de zinco
O zinco foi proposto como remédio para o zumbido com base na observação de que algumas pessoas com zumbido apresentam níveis mais baixos de zinco. Uma revisão Cochrane de 2016 com 3 ensaios clínicos randomizados e controlados, envolvendo 209 participantes, não encontrou “nenhuma evidência de que a suplementação oral de zinco melhore os sintomas em adultos com zumbido” (Person et al., 2016). No maior desses ensaios (com 93 e 94 participantes analisados por grupo), a taxa de melhoria foi de 5% no grupo do zinco contra 2% no grupo do placebo, uma diferença que não foi estatisticamente significativa. O zinco pode ter um papel a desempenhar se um exame laboratorial confirmar deficiência, mas não há evidência que suporte a suplementação de rotina. Se já estiver a tomar suplementos de zinco, tenha em atenção que doses elevadas de zinco a longo prazo acarretam risco de toxicidade; não exceda as quantidades recomendadas sem supervisão médica.
Melatonina
A melatonina é por vezes apresentada como um tratamento para o zumbido porque o zumbido e as perturbações do sono estão intimamente ligados. As diretrizes da AAO-HNS recomendam contra o uso de melatonina como tratamento para o zumbido. Alguns pacientes referem que ajuda a dormir, o que é um encargo secundário real do zumbido, mas não existe evidência fiável de que reduza diretamente a intensidade ou a gravidade do zumbido. Se o seu principal problema é o sono, um médico de clínica geral pode discutir opções com mais evidência científica. Note que a melatonina pode interagir com medicamentos sedativos; se estiver grávida ou a tomar sedativos, consulte o seu médico antes de a utilizar.
Gotas auriculares sem receita para zumbido: um aviso importante
As gotas auriculares ocupam um lugar diferente na categoria mental dos produtos sem receita. Vêm em pequenos frascos de aspeto clínico, são aplicadas diretamente no ouvido e parecem mais “médicas” do que uma cápsula. Essa sensação não tem suporte nas evidências.
Duas gotas auriculares homeopáticas comumente encontradas e comercializadas para o zumbido apresentam preocupações específicas quanto aos seus ingredientes. As gotas auriculares Ring Relief contêm Mercurius solubilis, uma preparação homeopática derivada do mercúrio, confirmada no rótulo DailyMed do produto. O Similasan Ear Ringing Remedy contém uma preparação homeopática de Cinchona officinalis, a planta de origem da quinina. A quinina em doses terapêuticas é classificada como um Risco Potencial Grave para doentes com zumbido, com aproximadamente 20% dos doentes em doses terapêuticas a experienciarem efeitos ototóxicos.
O ponto importante aqui é que as diluições homeopáticas são extremamente elevadas e, nas concentrações utilizadas nestes produtos (12X, 13X, 15X), a quantidade de substância ativa é negligenciável ou efetivamente zero segundo a química padrão. A ototoxicidade documentada da quinina e do mercúrio aplica-se a doses terapêuticas, não a diluições homeopáticas. O risco clínico específico destas gotas não está estabelecido nas evidências.
A preocupação que vale a pena reter é esta: estes são produtos comercializados para o alívio do zumbido, sem qualquer evidência de eficácia, fabricados a partir de agentes ototóxicos conhecidos e vendidos ao abrigo de um enquadramento regulatório que não exigiu testes de segurança específicos para o zumbido. “Homeopático” num rótulo não é um sinal de qualidade. Significa que o produto contornou completamente os requisitos habituais de evidência. Se tiveres o tímpano perfurado, os riscos de qualquer gota auricular aumentam ainda mais.
Consulta um farmacêutico antes de usar qualquer gota auricular sem receita para o zumbido.
A lista de verificação de rótulos: 5 sinais de alerta a identificar
Quando conheces as estratégias utilizadas, consegues ler a embalagem de forma diferente. Aqui estão cinco padrões a ter em atenção.
O aviso sobre a função/estrutura está no verso em letras pequenas. Se vires “Esta afirmação não foi avaliada pela FDA. Este produto não se destina a diagnosticar, tratar, curar ou prevenir qualquer doença”, as alegações na frente da caixa não têm respaldo regulatório. Este aviso é exigido por lei, mas a maioria das pessoas nunca o lê.
“Recomendado pelo número 1 dos médicos” sem metodologia citada. Como o caso do Lipo-Flavonoid ilustra, este tipo de alegação pode basear-se numa pergunta de inquérito sobre uma condição completamente diferente. Pergunta: quais médicos, quantos e o que lhes foi realmente perguntado?
“Clinicamente comprovado” sem estudo identificado. Uma alegação só é tão forte quanto o estudo que a sustenta. Verifica se é mencionado um ensaio específico revisto por pares e controlado por placebo. Se não for, a frase tem muito pouco significado.
Uma garantia de devolução do dinheiro enquadrada em 60 ou 90 dias. Este enquadramento sugere que os resultados demoram tempo suficiente para que a maioria das pessoas não se dê ao trabalho do processo administrativo de solicitar o reembolso. É um mecanismo de retenção, não um sinal de qualidade.
A lista de ingredientes é uma combinação comum de vitaminas. Uma análise de Stanford de 2019 concluiu que os suplementos para zumbido sem receita consistem tipicamente em vitaminas, minerais e ervas baratas e amplamente disponíveis, vendidas com um preço significativamente mais elevado quando reembaladas com uma marca associada ao zumbido (Vendra et al., 2019). Verifica o preço do equivalente genérico antes de comprar.
Identificar estes padrões requer prática. Se já gastaste dinheiro em produtos que os utilizavam, estavas a responder a estratégias de marketing especificamente concebidas para ser persuasivas. Isso não é uma falha de caráter.
Se estiveres a tomar algum anticoagulante ou antiagregante plaquetário, consulta o teu médico antes de usar qualquer suplemento contendo ginkgo biloba. O ginkgo pode aumentar o risco de hemorragia e pode interagir com anticoagulantes.
Nenhum suplemento para zumbido sem receita nem gota auricular é aprovado pela FDA. Todas as principais categorias de suplementos foram testadas e consideradas ineficazes em ensaios controlados. Algumas gotas auriculares sem receita contêm preparações homeopáticas de agentes ototóxicos conhecidos. O enquadramento regulatório permite alegações confiantes sem prova.
Conclusão: onde investir esse dinheiro em alternativa
É difícil lidar com uma página cheia de conclusões de “isto não funciona” quando o zumbido não parou. Conhecer os becos sem saída é genuinamente útil, no entanto: poupa dinheiro real, protege a tua audição e redireciona a esperança para opções com evidências reais por detrás.
Os tratamentos que passaram em testes clínicos rigorosos não se encontram nas prateleiras de uma farmácia. A terapia cognitivo-comportamental para o sofrimento causado pelo zumbido tem o respaldo da AAO-HNS, da NICE e das principais diretrizes internacionais, com uma meta-análise Cochrane a demonstrar reduções significativas no sofrimento causado pelo zumbido. Para pessoas com perda auditiva associada, os aparelhos auditivos reduzem frequentemente de forma significativa o peso percetivo do zumbido. A terapia sonora, incluindo ruído branco e enriquecimento sonoro estruturado, é recomendada nas diretrizes clínicas como ferramenta de gestão.
O próximo passo de maior valor é uma referenciação a um médico de família ou a um audiologista. Um clínico pode avaliar se existe uma causa subjacente, verificar a presença de perda auditiva e orientar-te para cuidados baseados em evidências. Nenhum suplemento consegue fazer nada disso.
Mereces respostas claras sobre o que vale e o que não vale a pena experimentar. O rótulo não te deu essas respostas. Este artigo tentou fazê-lo.
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Quando o Zumbido Para de Repente: O Que Significa e Se Vai Durar
O Meu Zumbido Parou de Repente: O Que Significa?
O momento em que o zumbido fica em silêncio pode parecer surreal. Depois de dias, meses ou até anos de zumbido, assobio ou chiado constantes, o silêncio chega sem aviso. Para a maioria das pessoas, a primeira reação é uma mistura de alívio cauteloso e preocupação imediata: Será que desapareceu mesmo? Será que volta se eu pensar demasiado nisso? Estas perguntas merecem ser levadas a sério, e este artigo responde a ambas com a maior honestidade que a evidência permite.
Se o teu zumbido parou de repente, é muito provável que estejas a experienciar uma de duas situações: resolução fisiológica verdadeira, em que uma causa reversível subjacente foi eliminada, ou habituação, em que o cérebro aprendeu a suprimir o sinal. A diferença entre as duas determina em grande parte se o silêncio vai durar. Na resolução fisiológica, a fonte periférica do problema (uma infeção, uma rolha de cerume, um medicamento) foi corrigida, e o sistema auditivo deixa de gerar o sinal fantasma. Na habituação, o sinal pode ainda estar presente a algum nível, mas os sistemas de atenção e emoção do cérebro deixaram de o sinalizar como importante, pelo que desaparece da consciência. Ambas são melhorias genuínas. Têm apenas implicações diferentes em termos de durabilidade.
As Razões Mais Comuns para o Zumbido Desaparecer
Quando o zumbido desaparece e não volta, a explicação mais provável é que o que estava a gerar o sinal foi resolvido. Existem várias causas reversíveis bem estabelecidas.
Resolução de infeção no ouvido. A otite média (infeção do ouvido médio) e as infeções do ouvido externo causam acumulação de líquido ou inflamação que perturbam a condução normal do som e podem desencadear zumbido. Quando a infeção desaparece, a perturbação mecânica resolve-se e o zumbido normalmente desaparece com ela.
Remoção de cerume. A acumulação de cerume pode pressionar o tímpano ou obstruir o canal auditivo, criando um som tonal de baixa frequência ou um ruído de sopro. A lavagem auricular ou a microaspiração (um procedimento suave de sucção realizado por um profissional de saúde) remove o bloqueio físico, e o zumbido muitas vezes desaparece em horas ou dias.
Desaparecimento de um episódio agudo por exposição a ruído. Após uma exposição única a um ruído intenso (um concerto, um fogo de artifício, um tiro), muitas pessoas notam zumbido ou audição abafada. Este tipo de zumbido agudo induzido por ruído resolve-se normalmente entre 16 a 48 horas após as células ciliadas da cóclea (as células sensoriais do ouvido interno que convertem as vibrações sonoras em sinais nervosos) recuperarem do deslocamento temporário do limiar auditivo (uma redução de curto prazo na sensibilidade auditiva causada pela exposição ao ruído). Se estás a ler isto na manhã seguinte a um evento barulhento e os teus ouvidos ainda estão a zumbir, há uma boa probabilidade de que melhore amanhã. Para muitas pessoas com zumbido agudo após um evento ruidoso, o som desapareceu por si só em um ou dois dias.
Alteração da medicação. Vários medicamentos, incluindo aspirina em doses elevadas, certos antibióticos, diuréticos de ansa (comprimidos para reduzir a retenção de líquidos, como a furosemida) e alguns agentes de quimioterapia, são ototóxicos (capazes de danificar o ouvido interno ou a audição) em doses suficientes. Quando o medicamento responsável é interrompido ou reduzido, o zumbido pode resolver-se, por vezes em poucos dias.
Normalização da tensão arterial. O zumbido pulsátil (um som rítmico que acompanha os batimentos cardíacos) é por vezes causado por fluxo sanguíneo turbulento perto do ouvido. Quando a hipertensão arterial ou uma irregularidade vascular é tratada, a fonte mecânica do sinal desaparece.
Resolução da disfunção da trompa de Eustáquio. A trompa de Eustáquio regula a pressão no ouvido médio. Quando fica bloqueada (por uma constipação, alergia ou mudança de altitude), os desequilíbrios de pressão podem causar zumbido. Assim que a trompa abre e a pressão se equaliza, o sintoma muitas vezes desaparece.
Em cada um destes casos, o organismo resolveu o fator periférico que estava a gerar o zumbido. Sem esse fator, não há sinal.
Quando o Cérebro Silencia o Zumbido: O Que a Habituação Realmente Significa
Nem todo o alívio do zumbido tem origem periférica. Uma parte significativa da melhoria que as pessoas experienciam ao longo do tempo reflete algo que acontece no cérebro e não no ouvido.
Um estudo longitudinal de 2025 acompanhou uma amostra comunitária de pessoas desde o início agudo do zumbido (menos de 6 semanas) até aos 6 meses, medindo em cada momento o seu sofrimento subjetivo e a sensibilidade auditiva objetiva. As pontuações do Tinnitus Handicap Inventory (THI) e do Tinnitus Functional Index (TFI) — questionários padronizados que medem o impacto do zumbido no funcionamento diário e no bem-estar — diminuíram substancialmente ao longo do tempo. As medidas objetivas de sensibilidade auditiva não se alteraram de forma alguma. Os ouvidos não estavam a recuperar. O cérebro estava a adaptar-se (Abishek et al., 2025).
Este processo chama-se habituação. De acordo com o modelo neurofisiológico de Jastreboff para o zumbido, amplamente citado na literatura científica, o sofrimento causado pelo zumbido envolve os sistemas límbico e autónomo (as redes cerebrais responsáveis pelo processamento emocional e pela resposta ao stress) que classificam o sinal do zumbido como ameaçador ou relevante. Com o tempo, se o sinal se revelar consistentemente inofensivo, estes sistemas podem reclassificá-lo como irrelevante e ele deixa de atingir a consciência. O sinal pode ainda estar presente a nível neurológico, mas o cérebro deixa de o trazer à superfície. Este é um modelo teórico e, embora a sua verificação completa aguarde investigação adicional, é consistente com os resultados de Abishek et al. 2025 descritos acima.
Isto explica por que razão o zumbido pode parecer que parou “de repente”, mesmo em casos em que não ocorreu nenhuma alteração periférica. A mudança é real e significativa. Não é uma ilusão. Em determinadas condições (stress, cansaço, uma divisão muito silenciosa à noite), o sinal pode reaparecer, pelo menos temporariamente. Isto não é sinal de falha ou recaída. Reflete a natureza do processamento atencional. A boa notícia de Abishek et al. (2025) é que os níveis de sofrimento atingem o pico no início e diminuem substancialmente nos primeiros seis meses para a maioria das pessoas, o que significa que a janela para a habituação se consolidar é real e relativamente próxima.
A distinção entre resolução periférica e habituação central muitas vezes não pode ser determinada com clareza a partir do exterior. Ambas podem produzir o mesmo silêncio subjetivo repentino. A diferença importa quando se pergunta: será que vai durar?
Remissão do Zumbido Segundo a Duração: Como Interpretar o Prognóstico
A informação mais útil para interpretar o silêncio súbito do zumbido é o tempo que o zumbido esteve presente antes de parar.
Zumbido agudo (menos de 3 meses). Esta é a janela de maior potencial de recuperação natural. Algumas fontes secundárias sugerem que cerca de 70% dos casos de zumbido agudo podem resolver-se espontaneamente, embora esta estimativa não tenha um estudo primário diretamente verificado por detrás. Para um grupo bem estudado — pessoas que desenvolveram zumbido após perda auditiva neurossensorial súbita ligeira a moderada (ISSNHL) — a taxa de remissão atingiu aproximadamente 67% dentro de 3 meses (Mühlmeier et al., 2016). A remissão foi consistentemente precedida pela recuperação auditiva, reforçando a cadeia periférica-central: quando o dano coclear se repara, a amplificação compensatória do cérebro dos sinais auditivos normaliza-se e o zumbido resolve-se.
Para os casos de perda auditiva grave a profunda no mesmo estudo, o cenário foi menos positivo: menos de um em cada quatro (aproximadamente 22,7%) alcançou remissão completa do zumbido (Mühlmeier et al., 2016). Para as pessoas que se apresentaram tardiamente (mais de 30 dias após o início), as taxas de remissão completa ficaram abaixo dos 20%, independentemente da gravidade da perda auditiva.
Uma ressalva importante: os dados de Mühlmeier aplicam-se especificamente ao zumbido relacionado com ISSNHL. As taxas de remissão para zumbido induzido por ruído, por medicação ou idiopático podem ser diferentes.
Zumbido subagudo (3 a 6 meses). O zumbido que persiste para além da fase aguda torna-se progressivamente menos provável de se resolver completamente por si só. A investigação sugere que aproximadamente 88 a 90% dos casos de zumbido agudo que não se resolvem precocemente passam a ser crónicos (Schlee et al., 2020). Isto não significa que a melhoria pare, mas desloca o mecanismo provável da resolução periférica para a habituação central.
Zumbido crónico (mais de 6 meses). A remissão espontânea completa ainda acontece. A investigação sugere que talvez 20 a 30% das pessoas com zumbido crónico experienciem melhoria significativa ou remissão completa ao longo de vários anos, embora as estimativas precisas variem entre estudos. Para o zumbido crónico, o objetivo realista desloca-se de esperar que o sinal desapareça completamente para alcançar uma habituação sustentada, em que o som já não causa sofrimento significativo, mesmo que seja ocasionalmente audível.
A crença persistente — por vezes transmitida por profissionais de saúde — de que o zumbido com mais de 6 meses de duração é permanente não é suportada pelas evidências. A remissão tardia acontece. Torna-se menos provável e o mecanismo é mais provavelmente atencional do que periférico.
Quando o Silêncio Repentino É um Sinal de Alerta a Levar a Sério
Na maioria das vezes, o facto de o zumbido parar é simplesmente uma boa notícia. Há, no entanto, uma situação em que o silêncio súbito justifica uma consulta médica em vez de um suspiro de alívio.
Se o zumbido parar apenas num ouvido e isto for acompanhado de nova perda auditiva nesse ouvido, sensação de pressão ou plenitude auricular, ou quaisquer sintomas neurológicos como tonturas súbitas, fraqueza facial ou alterações na visão, procure avaliação médica urgente. A preocupação aqui é a perda auditiva neurossensorial súbita (SSNHL), que pode surgir a par ou após o zumbido e requer avaliação rápida. Uma avaliação audiométrica (um teste de audição) deve ser agendada sem demora nestes casos; se estiverem presentes sintomas neurológicos, a avaliação no próprio dia é adequada.
O facto de o zumbido parar não é em si o sinal de alerta. Os sintomas que o acompanham é que são. Se o seu zumbido ficou em silêncio e se sente completamente bem, não há razão para preocupação. Se o silêncio num ouvido veio acompanhado de outras alterações, vale a pena ser avaliado.
Conclusões Principais
Após o silêncio súbito do zumbido, eis o que as evidências realmente suportam:
- O zumbido cessa através de dois mecanismos distintos: resolução fisiológica (uma causa periférica foi eliminada) ou habituação (o cérebro deixou de dar prioridade ao sinal). Ambos são melhorias reais.
- O tempo que o zumbido durou antes de parar é o guia mais útil para saber se o silêncio se vai manter. O zumbido agudo (menos de 3 meses) tem o maior potencial de remissão.
- Para as pessoas que desenvolveram zumbido após perda auditiva súbita ligeira a moderada, cerca de 67% alcançaram remissão completa dentro de 3 meses (Mühlmeier et al., 2016). Os que se apresentaram tardiamente tiveram taxas de remissão abaixo dos 20%.
- O zumbido crónico (mais de 6 meses) ainda pode melhorar. A investigação sugere que talvez 20 a 30% das pessoas com zumbido crónico experienciem melhoria significativa ou remissão completa ao longo de vários anos, sendo a habituação sustentada o resultado bem-sucedido mais comum.
- Se o zumbido parar num único ouvido acompanhado de nova perda auditiva, pressão ou sintomas neurológicos, consulte um médico.
O silêncio súbito, seja qual for a sua origem, merece ser encarado como um sinal real de melhoria para a maioria das pessoas. As evidências sustentam essa esperança, mesmo quando não a podem garantir.